Até Próxima (Português)
Este ano não vou poder comemorar as festas de fim de ano com minha família. Isso vai ter que esperar até 2011. Enquanto isso estou dedicando este capítulo aos meus pais. Feliz Natal antecipado, pessoal!
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Meus pais finalmente farão sua viagem bastante atrasada ao Brasil. Eles partirão em cerca de uma semana. Desta vez acho que eles vão conseguir. Os problemas com o consulado do ano passado estão acabados, o itinerário está definido e os bilhetes estão na mão. Tudo o que resta é embrulhar os presentes, os remédios, os chinelos , e entrar com suas coisas a bordo do avião.Em meio a tempestades de inverno precoce e ventos de um frio cortante, aconchegados em casa debaixo de 35 centímetros de neve, mamãe tenta imaginar o que levar para a segunda cidade mais quente no Brasil no segundo mês mais quente do ano, em êxtase devido à insistência de sua cunhada de que as últimas semanas têm sido excepcionalmente sufocantes, mesmo para os padrões de Natal.
Em poucos dias, ela vai se sentar diante de sua mala, ainda não completamente pronta para enchê-la, pouco tempo depois, ela vai se sentar diante da mala de novo, desta vez mais do que pronta para esvaziá-la. Dez anos de preparação, mas a viagem em si é simples: cai no sono em Atlanta e acorda bocejando no Rio. Então sonolentamente se escorrega para o Norte, em direção aos braços abertos da família. Ainda assim não foi fácil.
Ainda que o resultado final seja gratificante e traga grande alegria, assim como no parto, existe dor no processo. O desejo impulsiona mamãe à frente, mas os preparativos de viajem a empurram para trás. Há uma sombra mesclada a uma vívida antecipação e aos planos de última hora. Não vai ser como era no passado. Minha Avó, a mulher que minha mãe tinha como melhor amiga, conselheira e confidente, faleceu há vários anos – este foi o motivo da última viagem da minha mãe ao Brasil: dizer adeus. Agora quando voltar ela vai enfrentar essa ausência.
Sou abençoada por não ter tido que enfrentar essa perda, posso apenas imaginar como é. Enquanto isso os irmãos de mamãe viram a cidade e a família crescer e mudar em torno dessa lacuna, dobrando e atenuando as arestas com o passar tempo. Mas minha mãe vai colidir com essas arestas e não importa o que digam, no princípio elas serão afiadas.
Mas no final essas arestas serão atenuadas e tudo ficará bem. Com o regresso da minha mãe, os filhos e filhas de minha avó terão um pouco de sua mãe de volta. O restante virá através de suas conversas, suas lembranças, suas lágrimas e sorrisos: Saudades. Mamãe vai viajar milhares de quilómetros durante a noite pousará em Natal cansada, esgotada pela viagem, chorosa e feliz. Vovó vai aparecer numa rajada de conversa animada, com os olhos brilhantes, os cabelos castanho-chocolate, cheia de sabedoria e graça. Ao ver minha mãe, seus irmãos se lembrarão de vovó e exclamarão: “Como você se parece com ela!” E será como se nenhuma delas nunca tivesse partido.
Haverá também muitos outros para preencher a lacuna: sobrinhas, sobrinhos, sobrinhos-netos, primos, primos de segundo grau, primos de terceiro grau, primos distantes, bebês e mais bebês. Antigos vizinhos, professores, amigos e amigos de amigos. Mamãe terá os braços cheios repetidas vezes, por todo o tempo em que estiver lá. Todo mundo vai falar ao mesmo tempo, interromper, falar sem pensar e fazer provocações. Seu clamor alegre durará por toda a noite. Os vizinhos podem inicialmente reclamar, mas depois vão acabar se juntando a eles. Papai vai balançar a cabeça e sorrir enquanto mamãe vai muitas vezes chorar de alegria.
A experiência parece profundamente sufocante, encharcada de emoções, saturada, extraordinário. Espero que eles tirem muitas fotos. Espero que mamãe tenha sucesso onde eu falhei e tire fotos da família inteira, todos amontoados, seus rostos aparecendo por entre os cotovelos e os braços que envolvem os ombros uns dos outros. Espero que eles aproveitem cada chance de desfrutar algo de bom. Espero que comam muito e durmam bem tarde. Espero que eles passem muito tempo ao sol, chutando a areia de mãos dadas. Espero que consigam entrar na base militar como papai sonha fazer, chegando ao lugar exato onde ele viveu e trabalhou.
Espero que mamãe lembre Português suficiente para provocar meu pai sem ele saber. Espero que ele tenha paciência com ela por isso, ou pelo menos que responda à altura. Espero que eles às vezes fiquem sem palavras ao revisitar o passado e os lugares cheios de lembranças, que sejam tocados a ponto de ter que ficar em silêncio.
Mamãe e Papai Espero que mamãe me ligue muitas vezes enquanto estiver lá e que me descreva com riqueza de detalhes tudo o que estiver acontecendo. Espero que ela encontre muitos familiares sorridentes, velhos amigos e parentes dos parentes e amigos dos amigos até que perca a conta de todos os nomes. Espero que ela tente me dizer seus nomes e insista que eu os tenha conhecido e que eu deveria lembrar quem são eles, e que fique meio irritada quando eu insistir que não lembro. Espero que viajem com segurança e voltem com malas cheias de muitas lembranças . Espero nunca mais ouvir o final desta história.
A comemoração de Natal de nossa família será um pouco tarde, a fim de dar a meus pais tempo para retornar ao frio americano, na costa Noroeste do Pacífico. Eles estarão de volta a Spokane no Dia de Ano Novo e eu estarei lá não muito depois disso. Vamos todos juntos, empilhados na sala em meados de janeiro em volta de uma árvore de Natal descaradamente tardia, compartilhando as experiências sem nunca parar de falar. Papai dará gargalhadas e mamãe vai chorar um rio de lágrimas. Então vou lhe passar a caixa de lenços de papel, se é que vai sobrar algum depois de eu terminar de usá-la.
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Adendo…
Eu comecei este blog e minha própria viagem a Natal com uma foto em mente, esta que mostro abaixo. Possuo essa foto desde fevereiro último, infelizmente não pude postá-la no momento em que a tirei como havia planejado. Mas agora me parece a hora certa.
Os quadros saíram bonitos e tia Dinha parecia tão contente que eu hesitei em avisá-la que os quadros colocados perto da luz do sol de sua varanda vão desbotar mais rápido, e já até desbotaram um pouco. Mas assim é Natal, quem pode escapar do sol? Eles deviam baixar uma lei do bronzeado: Bronzeie-se ou desapareça!
Estou muito feliz por ter estado lá pessoalmente para ver o grande sorriso de tia Dinha e abraçar seus ombros rechonchudos. Mamãe e papai serão os próximos, e eu não posso esperar para ouvir a respeito. Espero que logo em seguida venha outra foto como esta. E já era tempo! Espero que logo, uma foto mostrará a nós quatro, ou umas quarenta pessoas, caso meus primos apareçam para uma visita. Mamãe me lembra de que a Copa do Mundo de 2014 está bem próxima. É hora de começar a procurar por vôos baratos…
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Beijos,
Andrea
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